Coxinhas e mortadelas, por *Fernando Gabeira

Fernando Gabeira: O Globo

19 de maio de 2018 00:55

 

Com a prisão de Lula, Palocci e, agora, José Dirceu, o PT sofre um duro baque. Os dois outros grandes partidos, PSDB e MDB, agonizam mais lentamente.

Precisamente as escaramuças para driblar a Justiça e escapar da Lava-Jato, diante de uma plateia atenta, vão levá-los à perda de credibilidade. Imaginam que ninguém percebeu que Gilmar Mendes soltou seus operadores.

Gilmar funciona como um juiz de futebol que apita uma inexistente falta de ataque dentro da área. No futebol chamamos a isso de perigo de gol. Em termos jurídicos, é perigo de delação premiada.

José Dirceu, o último a ser preso, concedeu uma entrevista muito sensata e inteligente sobre a vida na cadeia, como sobreviver, como se comportar.

Ele acha que a esquerda voltará ao poder, porque é esse o fio da história.

É perfeitamente possível que, num processo de alternância democrática, a esquerda volte ao poder.

No entanto, é difícil para os velhos militantes abrirem mão desse fio da história, da crença de que ela tem um rumo e desembocará no destino previsto.

Isto, por mais que seja revestido de um verniz científico, é na verdade um contrabando religioso no pensamento político.

Se a história tem um script determinado, o papel dos atores também é facilmente explicável, uns a favor outros contra o suposto rumo da história.

É um tipo de pensamento que facilita a divisão grosseira entre nós e eles.

Contribuiu a seu modo para o desgaste de nosso tecido político, do avanço da intolerância.

Coxinhas e mortadelas, na verdade, formam uma oposição até bem-humorada.

Uma oposição entre carne branca e vermelha que talvez viaje no nosso inconsciente antropofágico.

Hans Staden, um mercenário alemão que passou nove meses entre os tupinambás, foi certamente o primeiro coxinha da história.

Quase o comeram. Escreveu um livro que arrebatou a Europa, um best-seller para a época.

Nos dias atuais, a sublimação do desejo de devorarmos uns aos outros não deixa de ser um avanço.

No entanto, o quadro muda quando os setores mais radicais no espectro usam e abusam das expressões fascista e comunista.

Tanto o fascismo como o comunismo, cada um no seu estilo, deixaram milhões de mortos, em regimes onde a liberdade também foi sepultada.

Quem é chamado de fascista ou comunista sente-se, no caso de não sê-lo, bastante ofendido.

Mas isso não é o principal efeito colateral dessa leviana troca de acusações.

O fascismo é uma experiência histórica bem definida. O primeiro efeito colateral negativo de acusações infundadas é banalizá-la e, portanto, desativar sua rejeição e torná-la mais perigosa caso apareça no horizonte.

O outro efeito colateral das acusações recíprocas é a falsa sensação de que comunismo e fascismo são o verdadeiro antagonismo na sociedade brasileira.

A ambos interessa que o antagonismo seja esse. No entanto, ele mascara os diversos pontos em comum que os regimes comunistas e fascistas partilham: repressão política, partido único e suas consequências.

E esconde o verdadeiro adversário do fascismo e do comunismo: a democracia, solução negociada dos nossos problemas.

A esquerda usou grande parte de sua energia para se defender, e deixou de lado os problemas nacionais. É uma ausência que não só reduz suas chances da alternância no poder: empobrece o debate sobre a reconstrução nacional.