Abraço de afogados

O que leva um partido como o PSDB a jogar para o alto os escrúpulos e o discurso moralizador para apoiar um governo liderado por um presidente acusado de corrupção e ter tomado o poder de assalto, através de um golpe de estado? À primeira vista, a única explicação está no fato de o partido ter ficado tanto tempo fora do poder e, após três tentativas para retomá-lo – todas fracassadas -, viu no apoio ao golpe do PMDB a chance de influenciar com seu programa neoliberal que foi interrompido em 2003.

Porém, mergulhando com mais profundidade sobre a decisão, chega-se a conclusão que essa opção do PSDB vai muito além de uma simples conjunção de projetos. A idéia que os tucanos têm do governo é a pior possível, daí a divisão interna sobre a decisão de apoiar Michel Temer. Para eles, Temer é corrupto, está desgastado mas esperam uma decisão qualquer do Supremo Tribunal Federal para afastá-lo a fim de ter o apoio recíproco do PMDB para um eventual governo tucano indireto.

Não sendo possível isso, o PSDB aposta numa retomada da economia no início do próximo ano para aparecer como o salvador da pátria e contar com uma frente de partidos – incluindo o próprio PMDB – para lançar um candidato próprio às eleições presidenciais e fazer frente à força de Lula. Só que o PSDB está apostando no imponderável, algo como estar no governo e acertar num crescimento econômico são apostas que podem levar o partido a ser a alternativa para suceder Michel Temer.

O caminho não é por aí, uma vez que se associar a um governo desgastado e rejeitado pela grande maioria da população, esse desgaste vai atingir o PSDB e somar-se ao envolvimento de muitos de seus integrantes nas denúncias de corrupção investigadas pela Lava Jato. Mesmo assim, a cúpula tucana acha que, quando o atual procurador geral da República Rodrigo Janot deixar o cargo, seu sucessor aliviará a barra de muitos acusados, entre eles os que estarão no apoio ao governo de Temer.

Outro fator que pode ter servido de argumento para o PSDB optar por permanecer no governo é que, na oposição, não terá como ganhar os espaços políticos já ocupados por outras siglas como o PT. Fora do governo, o Partido dos Trabalhadores está construindo um projeto alternativo para as eleições de 2018 com o único trunfo de que dispoõe o partido: o ex-presidente Lula. Se Lula não for impedido de se candidatar no próximo ano, a vitória dele nas eleições é um acontecimento certo.

Nenhuma eleição é igual a anterior, todas são diferentes em seus diversos aspectos – partidos, projetos, candidatos novos – mas estar no governo, na visão da quase totalidade dos políticos é um conforto que traz fortes ventos de favoritismo. Mas nem sempre é assim. Na maioria das vezes, as “companhias” que candidatos e partidos se juntam, em especial aquelas desgastadas e rejeitadas, trazem revezes irreversíveis. No caso da aliança PMDB/PSDB é um abraço de afogados.