Tuiuti: é hora de inverter a lógica

Enquanto no meio carnavalesco costuma se afirmar que o carnaval é uma festa profana, há uma corrente na Sociologia que prega o contrário – o carnaval, onde todo folião ou carnavalesco procura inverter os valores do cotidiano, não é feito com intuito de profanar, o que é profano é o dia-a-dia na vida do indivíduo e de seu país. O enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti, que desfilou na madrugada de segunda-feira (12) na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, traz esse conceito em sua essência.

Se o conceito explica que profano é tudo aquilo que viola regras sagradas – o termo é relativo a temas religiosos que depois passou a ser usado comumente – o que o enredo da Tuiuti traz é a revelação do sagrado que foi profanado, como é o caso dos direitos sociais, com a reforma trabalhista e a reforma da previdência, sem contar outros direitos subtraídos como o emprego. O enredo “Meu Deus, meu Deus está extinta a escravidão?” retrata bem a atual situação de retrocesso que vive o país.

A Paraíso do Tuiuti não foi a única escola de samba, das 7 que desfilarão nas duas noites de desfile no Rio de Janeiro, a trazer para a avenida um enredo com críticas. O desfile está sendo marcado por uma forte politização. Detalhe é que a Tuiuti foi mais marcante, porque traz a público o que a mídia devia fazer, em lugar de questionar as reformas, está do lado daqueles que a querem fazê-la a qualquer custo não importando quem vai pagar a conta no final de tudo.

Desde o golpe de estado consumado em agosto de 2016, que um protesto não alcançava tanta repercussão no país e no mundo. Não foram poucas as tentativas do PT, sindicatos e outras entidades ligadas aos trabalhadores de mobilizar a população para protestar não só contra o golpe mas todas as medidas contra os direitos sociais. Poucas tiveram sucesso como as que fizeram vigília aos julgamentos de Lula nas 1ª e 2ª instâncias (Curitiba e Porto Alegre). No resto o povo parece anestesiado.

Com a sacudida que a Paraíso da Tuiuti deu no público presente à Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, e naqueles que estavam acompanhando a transmissão da TV Globo, e os que não viram mas receberam posts nas redes sociais, é possível que doravante a população passe a ver a situação do país de outra forma e comece a reagir a esse desmonte dos direitos sociais, enquanto instituições financeiras e latifundiários são anistiados de suas dívidas com a previdência e o Tesouro.

Quiçá essa mesma reação, caso não tenha continuidade em movimentos de mobilização nas ruas, possa ser manifestada nas urnas no dia 7 de outubro, enviando o seu recado àqueles que por motivo de interesses políticos, eleitorais e pessoais votam contra o interesse da maioria ignorando que são seus legítimos representantes. O cenário do carnaval do Rio de Janeiro nesta segunda (12) pode ter sido o ponto de partida para que a sociedade possa reagir a tudo aquilo que se faz para desestruturar um país e fazê-lo voltar no tempo.